Mindfulness
“Compaixão não é o relacionamento entre aquele que cura e o doente. É um relacionamento entre iguais.
Somente quando nós conhecemos bem nossa escuridão, podemos estar presentes com a escuridão do outro. Compaixão se torna real quando nós reconhecemos nossa humanidade compartilhada.”
Pema Chödrön
Retirei este trecho inspirador do livro “Mindfulness e Terapia Cognitivo Comportamental”, escrito por Isabel Weiss, uma psicóloga com excelente formação acadêmica e, acima de tudo, uma alma apaixonada pelo que faz.
É sobre este livro que está baseado o texto de hoje.
Espero que goste e, acima de tudo, espero que inspire você na direção de escolhas caca vez mais conscientes na direção de uma Nova Forma de Ser.
Boa leitura !
Sistemas filosóficos e religiosos, de tempos imemoriais, buscam nos orientar sobre a regulação de nosso comportamento, nossas emoções, nossos pensamentos…. Sim… como lidar com nossa maravilhosa e complexa humanidade não é uma inquietação recente. Longe disso ! E, interessantemente, de uma forma ou de outra, influenciaram o desenvolvimento científico até os dias de hoje.
Foi assim então que, de maneira natural e espontânea, muitas abordagens em psicoterapia começaram a se debruçar sobre os princípios e métodos dos sistemas orientais, especificamente, nas duas últimas décadas, do que hoje se convencionou chamar de Mindfulness, um conceito apaixonante que resgata a sensorialidade corporal e que, exatamente por isso, é tão gratuita e tão flexível. Não pagamos nada por respirar, basta respirar. Nosso corpo, por um acaso, está conosco em qualquer lugar que estejamos… E, ademais, mindfulness pode ser feito em pé no trem, no metrô, caminhando, lavando louça, não importa… Mindfulness é sensorial, corporal, presente e gratuito !
Como não se apaixonar ?
Como não utilizar ?
A realidade está onde colocamos nossa atenção.
William James
Origem do termo Mindfulness
Mindfulness é um termo associado, em sua origerm no idioma pali ao “não esquecimento da mente em relação ao objeto experimentado, sendo a sua função a não distração” ( Weiss, 2020 ).
“Nesse contexto, mindfulness (sati) significa cultivar a ausência da distração e também reter na mente o que se está fazendo, sem confusão ou sem se perder ou fantasiar, enxergando a natureza verdadeira dos fenômenos exatamente como são, no momento em que eles surgem para o praticante, gerenciando ou vigiando a mente para que se tenha noção dos estados em que ela se encontra, se nocivos, virtuosos ou neutros.”
Mindfulness também se relaciona a uma técnica de meditação ( Vipassana ), proposta por Sidarta Gautama, através da qual se busca ver as coisas como elas são.
Em sânscrito, refere-se a “estar ciente de algo ou alguma coisa”, “estado ativo da mente”, “fixar fortemente a mente sobre um objeto”, “atenção”, “atentividade” e “consciência”, termos que nos remetem à atenção plena ou presença.
Enquanto processo, na medida em que vamos desligando a mente do exterior para focar no objeto de contemplação, vamos alcançando estágios profundos de concentração, de tal forma que um novo grau de consciência é atingido e no qual o famoso “tagarelar mental” vai dando lugar à uma indescritível sensação de clareza consciente, inteireza e presença.
Enfim, é a partir dos valores da pura filosofia e metafísica vedanta, especialmente sob a visão dos Yogas Sutras de Patanjali,que os estudos sobre mente e consciência são desvendados. “É justamente a partir desse ponto que iniciamos uma jornada nos ensinamentos e na sabedoria do mindfulness”, como nos diz Isabel Weiss.
A Filosofia e a Ancestralidade
Weiss salienta que “as práticas de mindfulness envolvem uma observação introspectiva, intencional e constante em que durante, o processo, diversos fatores mentais e conscienciais são desenvolvidos, reconhecidos e trabalhados, sendo um dos objetivos das práticas esta inter-relação desapegada, impassível e fluida entre o conhecedor e o conhecido, entre a mente e o objeto sobre a qual ela repousa em curiosidade dinâmica.”
Eu diria que qualquer pessoa que já observou uma criança pequena imersa na interação com um brinquedo já pôde ser espectador desta definição.
Essa concentração sustentada permite que se conheça o objeto tal como ele é, sem criações mentais que não dizem respeito a ele diretamente.
Quando falamos aqui de objeto é importante esclarecer que “objeto” pode ser tanto algo físico, como o celular, como algo não tão físico assim, como a respiração ou nossos sentimentos, por exemplo, o que nos leva a um outro ponto.
Mindfulness no Ocidente…. um pouco de história
“A introdução de mindfulness no campo da psicologia, da medicina comportamental e no dia a dia dos ocidentais é relativamente recente. Iniciou nos últimos anos do século XX com o trabalho de Jon Kabat-Zinn no Centro Médico da Universidade de Massachussetts, nos Estados Unidos, em que pacientes afetados pela dor e o estresse eram convidados a serem submetidos ao treinamento da atenção diligente, em grupos, com programa elaborado a partir da própria experiência do pesquisador com as tradições orientais budistas.
A partir disso, Kabat-Zinn desenvolveu um protocolo de oito semanas baseado em meditação, basicamente secular, e orientado a auxiliar os pacientes na administração do estresse decorrente do sofrimento associado a alguma doença, o qual foi denominado Mindfulness-Based Stress Reduction (MBSR – Redução do Estresse Baseada em Mindfulness).
Em sua obra Full Catastrophe Living – Using the Wisdom of Your Body and Mind to Face Stress, Pain, and Illness, Kabat-Zinn relata que a experiência se tornou de vital importância para aqueles que buscavam ajuda para recuperação de suas dores físicas e emocionais, indo muito além de um mero complemento para os tratamentos médicos convencionais. Este programa tornou-se modelo para outros programas baseados em mindfulness que vieram a ser desenvolvidos por outros pesquisadores clínicos, de várias universidades de renome no mundo todo.”(...)
Atualmente, “no Brasil, adota-se o termo mindfulness, apesar de difícil pronúncia para os brasileiros, primeiramente para se evitar o reducionismo, assim como para que toda a produção científica no país, que vem crescendo exponencialmente nos últimos anos, encontre ressonância terminológica no restante do mundo na era digital.”
Mindfulness no contexto da Saúde
Meu terapeuta Sidney Chioro sempre dizia “Quem percebe o que faz, não faz besteira”. Não sei ele estudava sobre Mindfulness, mas que esta frase se refere ao conceito, isso, com certeza !
Quando estamos conscientes e observadores do que está acontecendo, naturalmente, abre-se um espaço de escolha decisória, diametralmente oposta ao piloto automático, impulsivo e imperativo de crenças disfuncionais.
Perceber a possibilidade de poder escolher, por si só, já nos tira de uma posição vitimista ou agressiva e nos dá uma sensação que passa pelo empoderamento, pela sensação de “existo e estou aqui!”.
Em termos mais formais, Weiss nos motiva sobre a prática aplicada a mudança comportamental ao dizer que “mindfulness é um estado mental que proporciona abertura e aceitação da experiência do momento presente, cultivando uma “consciência fresca”, sem restrições, livre de hábitos antigos e condicionados, o que promove uma dissociação entre estímulo e resposta. (...) Estudos mais recentes confirmam que o treinamento em meditação baseada em mindfulness, também considerada uma técnica da terapia comportamental, desfaz a aprendizagem relacionada ao comportamento condicionado, o que faz pensar no potencial dessa ferramenta no tratamento de transtornos mentais.” E aqui, transtornos mentais podem ser entendidos como ansiedade, depressão, compulsão alimentar, vícios, fobias em níveis tão acentuados que trazem prejuízos visíveis em nossas vidas.
Praticar Mindfulness não significa ser budista, a menos que queira. Mas, outrossim, significa dar a si mesma (o) a possibilidade de construir um Nova Forma de Ser.
Bem, por hoje ficamos por aqui.
No próximo texto, vamos começar a explorar um tema fascinante: Mindfulness e o seu cérebro.
Beijos !
Referência Bibliográfica
Mindfulness e terapia cognitivo-comportamental / Isabel C. Weiss de Souza ; colaboração Cleyton Brust ... [et al.]. ‑ 1. ed. ‑ Barueri [SP] : Manole, 2020.
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