Hekate: Sombra que resgata Poder


A Senhora do entre-mundos, daquilo que transita, daquilo que não se define, daquilo que é sombra, daquilo que não tem contorno definido, essa é Hekate. Aquela que nos suporta quando tudo parece ruir em volta.

Presente em minha vida em épocas de transição, ela se faz sentir atualmente com tanta força e respeito que é impossível ignorar esse sentimento. Ao entrar em contato com Hekate, sou tomada de uma sensação de seriedade, comprometimento, objetividade, como se Hekate ativasse o lado mais responsável meu.

Saindo de um processo de, pelo menos, três anos de depressão, confesso que estou elaborando minhas polarizações internas. Estou na fase da alegria meio desencaixada, por vezes fora de contexto - nos termos da Psicanálise, em fase maníaca. Sinto-me assim na maior parte do tempo. 

Não obstante, Hekate é aquela que me centra e me reorganiza por dentro. Espiritualmente, eu a reverencio como Deusa. Psicologicamente, é um arquétipo de força com o qual estou aprendendo a me relacionar.  

Então, quero compartilhar aqui esta potência de Hekate: a Sombra que resgata Poder.


A Psicologia Arquetípica de Hekate

Psicologia Arquetípica

A psicologia arquetípica é uma abordagem da psicologia que se baseia na e aprofunda radicalmente a teoria dos arquétipos de Carl Jung. 

Sempre que estamos num ambiente onde mitos, deuses e deusas são explorados em termos psicológicos, estamos em terreno junguiano. Isso se deve ao fato de que Jung propôs que os arquétipos são padrões universais de comportamento e pensamento que residem no inconsciente coletivo da humanidade. Esses padrões são expressos através de imagens, símbolos e mitos que se repetem em diferentes culturas e épocas.

Como nos diz Gustavo Barcellos ao fazer a introdução do livro “Psicologia Arquetípica - Uma Introdução Concisa”, em 1970, James Hillman escreveu um artigo para a revista Spring com o título “Por que Psicologia Arquetípica”. Lançava-se então as bases dessa psicologia que radicaliza conceitos junguianos.

A psicologia arquetípica de James Hillman vai além da psicologia junguiana. Hillman acreditava que os arquétipos não são apenas padrões universais, mas também forças que moldam a psique individual e coletiva. Para Hillman, a alma é o centro da experiência humana, e os arquétipos são as ferramentas que a alma usa para se expressar e se desenvolver.

Porém, de uma maneira que pessoalmente me parece muito mais interessante, Hillman fala de um conceito de Alma imanente, semelhante ao conceito de Deusa imanente como vemos na Bruxaria Natural e na Wicca, por exemplo. Aproximando, podemos dizer que, diferente da ideia de uma deusa ( ou um deus )transcendente ou distante, a Deusa Imanente é aquela que está presente em cada pessoa, em cada detalhe do mundo, permeando a realidade com sua energia criativa e transformadora.

Para quem conhece os Epítetos de Hekate, fica fácil estabelecer relação com o Epíteto de Alma do Mundo.

Como hoje, o foco está na Sombra, vamos a ele. Teremos tempo e espaço para explorarmos outros Epítetos de Hekate.

A Sombra

Na psicologia arquetípica de James Hillman, a sombra é um conceito central e multifacetado. Ela representa muito mais do que apenas os aspectos negativos ou reprimidos da personalidade. 

Para Hillman, e atenção aqui, a sombra é uma força arquetípica essencial para a totalidade e o desenvolvimento da alma individual. 

A Sombra Hillmaniana é:

  1. Força criativa e vital: A sombra não é apenas um depósito de conteúdos indesejados, mas também uma fonte de energia criativa e vital. Ela contém instintos, paixões e potenciais não realizados que podem ser importantes para o crescimento pessoal.

  2. Portadora de mistério e transformação: A sombra nos confronta com o desconhecido e o obscuro em nós mesmos. Ao reconhecer e integrar a sombra, podemos acessar novas perspectivas, romper com padrões limitantes e experimentar uma transformação profunda.

  3. Conexão com o inconsciente coletivo: A sombra pessoal se conecta com a sombra coletiva, que é a parte obscura da cultura e da sociedade. Ao explorar nossa própria sombra, podemos também compreender melhor os problemas e desafios do mundo ao nosso redor.

  4. Necessidade de reconhecimento e integração: Hillman enfatiza a importância de não negar ou reprimir a sombra, mas sim reconhecê-la, acolhê-la e integrá-la à consciência. Esse processo pode ser desafiador, mas é fundamental para alcançar a totalidade e a autenticidade.

  5. Expressão através de imagens e símbolos: A sombra se manifesta através de imagens, símbolos e fantasias que emergem nos sonhos, na imaginação e na vida cotidiana. Ao prestar atenção a essas expressões, podemos obter insights valiosos sobre nossa própria sombra.

A abordagem de Hillman em relação à sombra se diferencia de outras perspectivas, como a de Jung, que a via principalmente como um aspecto a ser confrontado e superado. 

Para Hillman, a sombra é uma parte intrínseca da alma, com sua própria beleza, inteligência e propósito. 

Radicalizando essa ideia, podemos dizer que adoecer é uma forma da Alma de se fazer ser ouvida.

Ao explorar a sombra sob a ótica de Hillman, podemos desenvolver uma compreensão mais profunda de nós mesmos, do mundo e da complexa teia de luz e sombra que nos constitui como seres humanos.

Já colocamos boa parte do raciocínio para ganharmos consciência sobre Hekate, como a Sombra que resgata o Poder.


Hekate, a Deusa que navega no sombrio

Quem já buscou por Hekate, sabe que, enquanto Deusa, é muitas vezes vinculada com o escuro da lua presidindo os segredos da regeneração. 

Em seu inspirador livro "Mistérios da Lua Negra”, Demetra George nos ensina: “Hécate é a xamã arquetípica, visto que se move entre os mundos de uma maneira fluida e fácil. Ela faz a ponte entre a realidade visível e invisível, aprofundando os conhecimentos (...) com o principal propósito de efetivar a cura e a regeneração.”

Enquanto “Guardiã do Inconsciente Hécate de três faces, fica nas encruzilhadas  do nosso inconsciente. Ao observar nossa aproximação, ela pode ver tanto para trás quanto para a frente em nossa vida.”


Resgate de Poder através do Sonho

O sonho de uma querida paciente minha ilustra muito bem essa potência. Acompanhe:

“Eu estava dirigindo um carro e estava bem escuro, era de noite. Quando fui atravessar um cruzamento, parei o carro e fui para o banco de trás. De repente, um cão entrou no carro e deitou no meu colo. Eu não tinha medo do cão, mas ele tinha um pedaço de carne na boca. Eu abri a porta para ele sair e quando olho para o lado, havia dois corpos mortos por causa de um acidente que tinha acabado de acontecer.”

Minha paciente está numa fase intensa de escolhas, decisões, rupturas, conexão com o mais instintivo de si mesma e sua fase foi incrivelmente trazida por Hekate nas imagens de noite, escuro, encruzilhada, cão e mortos inquietos.

Essa é Hekate conversando através dos sonhos, orientando no escuro, no temor, nas encruzilhadas, na potência do cão selvagem.


Um beijo grande !

Salma


Bibliografia

GEORGE, Demetra. Mistério da lua negra: Lilith, Kali, Hécate e a cura dos arquétipos femininos sombrios no mundo moderno. 1. ed. São Paulo: Editora Pensamento Cultrix, 2021.

HILLMAN, James. Psicologia arquetípica: uma introdução concisa. 2. ed. São Paulo: Editora Cultrix, 2022. (Biblioteca Cultrix de psicologia junguiana)



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