Corpo vivido, corpo pensado, corpo fragmentado…
Oi ! Como vai ?
Introdução
Eu tive meu primeiro contato com o texto que vai servir de base para este blog há muitos anos, quando Maria Clara, ou como a chamo, Clarinha, minha filha, ainda era pequena e a proximidade corporal entre mãe e filha era um tema constante em nossa vida, e prazeroso, afetuoso e constituinte.
E hoje, revirando minha biblioteca, deparei-me com ele novamente.
Apesar de estar num momento diferente enquanto mãe, o texto continua me tocando profundamente, como se me descrevesse de alguma forma.
E este é o principal motivo pelo qual eu o compartilho aqui agora com você.
Espero que seja tão inspirador pra vc, como ele o é para mim… anos depois…
Ah… sim, a referência bibliográfica segue ao final do texto.
Bjs e boa leitura !
Corporeidade
É muito interessante refletir a respeito de uma, que em minha opinião leiga, é uma das maiores diferenças entre o pensar ocidental e o pensar oriental: a percepção da corporeidade na relação com a espiritualidade e, portanto, com a percepção de si na relação corporal.
Se por um lado, nós aqui no ocidente, somos absurdamente influenciados por uma cultura católica na qual o corpo é fonte de pecado e precisa ser doutrinado, por outro, temos um olhar oriental no qual o corpo tranquilo e treinado é o caminho da espiritualidade.
O Professor Doutor em Educação, Wagner Moreira, em seu artigo “ O Fenômeno da Corporeidade”, nos leva a pensar a respeito quando diz que “a visão antropológica tradicional aprisionou o corpo submetendo ora ao comando do pensamento ora ao rigor do espírito.”
E acrescenta que a antropologia cristã embasa-se na ”ideia de que necessitamos desenvolver o espírito apesar do corpo ser um obstáculo para essa missão”.
Já parou para pensar sobre isso ? O corpo com o qual você nasceu, com o qual vai morrer e que é seu 24 horas por dia visto como um entrave ?!!
Ah… sim… veja a ironia: se o meu corpo é ruim, eu também o sou.… e preciso de alguém para dizer o que é certo, correto e bom para este corpo que é fonte de toda a vergonha…
Deslocamento de poder sobre o corpo
Que lógica interessante de absorção de poder…
Moreira continua: “as consequências de se conceber o fenômeno corporal dessa maneira estão presentes até hoje tanto na educação como na ciência. Em ambas as áreas, o corpo é um objeto subalterno à ideia de corpo. O que vale não é a concretude do corpo mas sim a ideia de como esse corpo está no mundo o que pode conseguir no mundo.” O importante é, portanto, o corpo da produção. Falamos então de um corpo não-desejante e disciplinado .
Mas Mestre Jung já nos ensinou há muitos anos que, aquilo que eu não reconheço acaba por me dominar… Então, vc pode fazer ideia do desastre que vem de um paradigma de tanta ruptura interna como este que se coloca em nossa cultura. Compulsões mil, para dizer o mínimo.
Ocorre que esse “corpo abstrato, coisificado, sem um sujeito” dentro dele, torna-se “ corpo do homem sem o humano”. E aqui, tocamos questões éticas, percebe ?
“Esse corpo objeto foi estudado pela ciência através do paradigma cartesiano, onde esquadrinhado, analisado pela lógica formal deveria apresentar reações previsíveis numa relação permanente de causa-efeito”.
Resultado: temos um corpo, conhecemos muito sobre um corpo mas não somos um corpo, não sabemos o corpo.”
A própria complexidade do fenômeno da corporeidade colocou frente aos nossos estudos iniciais e transgressores à época, a necessidade da simplificação metodológica, o que faz sentido, na medida em que não se consegue iniciar os estudos básicos de qualquer coisa que seja a partir do complexo. Acho que ninguém aqui foi alfabetizado lendo Camões…
Precisamos partir do simples, e tudo bem. Mas precisamos permanecer no mecânico e no simples ? Precisamos mesmo do previsível para nos sentirmos seguros o tempo todo ?
Se, por um lado, essa simplificação foi necessária no início dos estudos anatômicos do corpo e que, sim, nos levou a descobertas tão extraordinárias a respeito do próprio corpo, também impactou na perda da unidade original e criativa de ser e estar no mundo em comunhão com outros corpos. Reduzimo-nos tempo demais…
E até mesmo numa das áreas da Arte mais lindas e poéticas como é, por exemplo, a dança clássica, é possível vermos o corpo objeto “sendo mecanicamente preparado para obter rendimento melhor, aperfeiçoando um ritmo uniforme, padronizado através de sequências fabricadas, onde o objetivo é o desempenho máximo, mais uma vez a perspectiva do corpo perfeito desprezando-se as possibilidades corporais” e criativas de um corpo que traz, em si, a natureza da complexidade.
Dessa maneira, apesar de estar na Arte, o corpo é anestesiado enquanto individualidade criativa.
“Sensível agonia de uma história que é vivida em função do corpo pensado, da ideia de um corpo perfeito, regido somente pelo pensar lógico racional, corpo moldado por valores da moral vigente, de regras previsíveis, de comportamentos estereotipados, de reações controladas.
Corpo Ideal
Corpo ideal, concebido na ideia de seriedade, de cumprimento dos deveres de forma rija, da necessidade de não se cometer erros.
Corpo ideal, manipulável, sem vontade própria, sem abertura ou permissão para as paixões, corpo que passa pela vida mas não consegue experienciar a vida” ou experimentar ou saborear ou dançar com ela.
Porque está muito ocupado na vida produtiva, que ganha títulos, diplomas, views, seguidores, reconhecido socialmente… corpo que se ilude.
“Corpo pensado carregador de cargas e sobrecargas desnecessárias em nome das possibilidades futuras. Corpo pensado que, ao longo da história, perdeu a sensibilidade de confiar em suas sensações e por essa razão substituí-las por instrumentos externos que medem, avaliam, conferem em dados com precisão e não deixam margem para dúvidas.
Corpo pensado, perfeito, esquadrinhado, determinado, explicado com reações previsíveis, disciplinado que jamais compreenderá a insustentável leveza do ser.”
O Corpo Vivido
Numa destas engraçadas ironias da vida, o corpo-sujeito vivido é um corpo que reconhece carência e, justamente por isso, se permite a autossuperação, através de “uma produção de conhecimento que garanta a vida de forma holística para então só depois pensar em especializações. O corpo sujeito não convive bem com a máxima de que a soma das partes forma o todo.”
Não falamos aqui em optar pelo corpo vivido em detrimento de abandonar ou negar o ato de pensar. Ao contrário !
“O corpo vivido é o que se dispõe naturalmente a pensar o silêncio do sentido, a pensar concretamente as e nas paixões, a pensar e ousar viajar na direção de se auto superar. O corpo vivido concretiza esse pensamento e subordina a ação de pensar a sua própria vida e história, inclusive nos momentos em que produz vida e produz história. (...)
Corpo vivido que encontra a vida, que busca prazer, que busca superação de sua carência na convivência com os outros corpos, movimentando-se permanentemente na direção de sua auto superação.
Corpo vivido que, sem medos fictícios ou imaginários, deixa-se subir em montanhas, nadar em rios, contemplar amanheceres sem a sensação de tempo perdido ou de ato leviano por não significar produção.
Corpo vivido que acaricia e é acariciado, que doa e recebe energia vital, que brinca com os outros corpos e permanece criança sem constrangimentos, sem imaginar que ofende o mundo do adulto.
Corpo vivido que pode se deixar transparecer, se revelar, na perspectiva de, na vivência de hoje, transformar o amanhã das relações corporais.
Corpo vivido que, em nome da vida, não necessitará esperar chegar aos 85 anos de idade para iniciar um poema de vida com a frase
se eu pudesse viver novamente a minha vida…”
Beijos !
Referência:
Moreira, Wagner O Fenômeno da Corporeidade: Pensado e Corpo Vivido in Pensando o Corpo e o Movimento organizado por Estelio H. M. Dantas - Rio de Janeiro: Shape Ed., 2005
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